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07/01/2008


Governo e microcrédito não combinam

Criador do Grameen Bank e Nobel 2006 vem ao Brasil e fala sobre a experiência em Bangladesh
Com uma população de 126 milhões num espaço do tamanho do Amapá, uma localização geográfica sujeita a chuvas torrenciais e constantes enchentes, Bangladesh já foi considerada uma das nações mais pobres do mundo. Em 2000, no entanto, o índice de pobreza caiu pela metade, em grande parte pela ação de Muhamad Yunnus, Prêmio Nobel de 2006 e criador do Grameen Bank, um banco que só empresta dinheiro para pobres, de preferência mulheres, não cobra juros sobre juros e não exige garantias na hora do empréstimo.

Mas, em novembro deste ano, o país foi devastado por um ciclone que matou mais de duas mil pessoas e abalou novamente a frágil economia. Por causa disso, quase Yunnus desistiu de viajar ao Brasil para dar uma palestra na Ecopower Conference, fórum sobre energias renováveis que aconteceu em Florianópolis. Ele só veio porque acha importante passar adiante sua experiência e, quem sabe, vê-la replicarse ainda mais, já que outros 60 países já adotaram a medida.

Tudo começou em 1976, quando Yunnus deu US$ 27 dólares a 42 famílias para evitar que elas se transformassem em escravas de agiotas da região.

Começou a ser visto como Deus e não era isso o que pretendia. Foi então que teve a idéia de criar um banco onde os pobres tivessem livre acesso.

Hoje, 7,5 milhões de bangladenses são seus clientes. Com 25 mil empregados e apenas um pequeno escritório no Centro de Bangladesh, a prática do Grameen é bem diferente da dos demais bancos: Vamos à casa dos clientes porque são lugares muito inóspitos, nem sempre eles têm condições de sair dali disse o Nobel, formado em economia com doutorado nos Estados Unidos.

E o Grameen já deu frutos. Por conta da crise energética, foi criada a Grameen Energy, que faz a produção de energia solar através de painéis nas aldeias de Bangladesh. Lá somente 30% da população têm acesso à energia. Com os painéis solares, mais cem mil casas conseguiram alcançar este patamar. O único problema é o custo do equipamento, ainda caro, disse Yunnus: Se o custo fosse reduzido a U$ 1,50 cada, nós conseguiríamos instalálo em todas as casas de Bangladesh.

Além disso, outra idéia de Muhamad também já rendeu bons resultados.

Observando os mendigos nas ruas, ele pensou em oferecê-los alguma coisa que pudessem vender, em vez de pedir. Dessa forma, já conseguiu tirar dez mil mendigos das ruas, dos cem mil que existiam: tornaram-se vendedores. Os outros 90 mil dividem seu tempo: metade do dia vendem, na outra metade continuam pedindo. Para os clientes não mendigos, o mínimo do empréstimo é R$ 35, com juros simples de 20% ao ano. Ele prefere emprestar dinheiro a mulheres, já que elas são mais criativas.

Tivemos um caso, por exemplo, de uma senhora que comprou um telefone e passou a emprestá-lo a todas as pessoas. Em pouco tempo, tornouse o centro telefônico da vila disse.

O Grameen também empresta dinheiro para jovens estudantes. Estes valores só são pagos depois que a pessoa se forma, e com juros de 5% ao ano. Quando lhe perguntam se é bom fazer parceria com o governo, Yunus não titubeia: Não. Uma analogia que eu faço é que o governo e o microcrédito quimicamente não se combinam porque o governo é uma entidade política e quando uma entidade política começar a fazer empréstimos para pessoas pobres a política vai ser mais importante do que a dívida. Quando o microcrédito não funciona a culpa não é do microcrédito, mas de quem o administra garante Yunnus.

Por isso o Grameen Bank tem como norma não aceitar dinheiro do governo, nem doações pessoais. Os juros é que garantem o capital. Mas, no caso de um acidente grande como foi o ciclone, o empréstimo é feito com taxa de juros a 0%.

Acabamos perdendo dinheiro, mas não podemos deixar de ajudar disse ele.

A contrapartida, que não é exigida, mas sugerida, é que as pessoas e seus filhos freqüentem as escolas. Muhamad disse que o interesse do Brasil pelo microcrédito é muito grande. Mas, será que ele vê esta como a única solução para a inclusão social no mundo?, perguntei: Não é a melhor solução para a inclusão social porque se você disser que é a melhor, aí é o fim da linha, achou-se a solução e ponto final. Tem se provado muito boa, mas há várias outras maneiras, provavelmente, há muitas mentes brilhantes que vão conseguir encontrar maneiras tão boas quanto esta — disse ele.

Para ilustrar melhor a teoria, o indiano faz uma analogia com os irmãos Wright que teriam inventado o avião que voou só 20 segundos e caiu: — Hoje há boeings, air bus, provando que a idéia deles era boa. Este programa de microcrédito pode ter esta função, então, de começar alguma coisa que será melhorada no futuro.


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