27/08/2008
O microcrédito também está avançando no Brasil
Quando há um grupo coeso, de três ou quatro pessoas, tudo funciona melhorJosé Giovani Anversa
Existem, nas zonas urbanas brasileiras, cerca de 11 milhões de microempreendedores. Dentro deste universo, 60% inicia o próprio negócio por vocação - número próximo ao dos EUA e inferior ao do Peru, por exemplo - e 40% por necessidade (a grande maioria pela perda do emprego formal). A notícia ruim é que quase todos vivem na informalidade, sem acesso ao crédito tradicional, fadados a lutar pela sobrevivência imediata e, assim, com poucas perspectivas de crescimento.
Dos 11 milhões, menos de 600 mil são atendidos pelo Microcrédito Produtivo Orientado, cujas principais características são a oferta de crédito limitado a juros baixos combinada com muita orientação financeira. Essa modalidade é focada no desenvolvimento de pequenos negócios e serve a investimentos, reformas, compra de máquinas, tudo sob orientação e acompanhamento de um agente de crédito.
Apesar do cenário desfavorável para os microempresários brasileiros, que pouca perspectiva têm de prosperar, algumas experiências dentro e fora do País mostram que as instituições financeiras, sejam privadas ou estatais, podem ter um papel importante na ampliação dos horizontes deste público. O projeto pioneiro nasceu em Bangladesh, país asiático com 150 milhões de habitantes, renda per capita de US$ 300 e 60% de analfabetismo na população.
Diante do caos social, na década de 70 o economista Muhammad Yunus - nascido em Bangladesh, graduado nos EUA - resolveu examinar a fundo a situação e propor uma saída alternativa. Numa aldeia, conheceu Sofia Begum, 21 anos, mãe de três filhos. Ela tomava emprestado de um agiota a juros de 10%. Com o bambu que comprava, fazia tamboretes, mas tinha de vender tudo ao próprio agiota com margem de lucro de só US$ 0,02 por peça.
A partir desse caso e de experiências subseqüentes, Yunus criou, então, o Grameen Bank, ou Banco do Povo, e ficou conhecido como o Pai do Microcrédito. Em 2006, já autor do livro "O Banqueiro dos Pobres", foi laureado com o Nobel da Paz. Prêmio, aliás, que tem lastro, dado que por meio do microcrédito 10% da população daquele país saiu da pobreza ainda no século XX. Desde as primeiras experiências feitas em Bangladesh, inú meros países começaram a buscar sua própria fórmula de trabalhar as microfinanças. No Brasil, já existem mais de 200 instituições atuando com o Microcrédito Produtivo Orientado, ainda que a maioria seja de pequeno porte e incapaz de atender a forte demanda.
As experiências mostram que o microcrédito é viável em terras brasileiras e que o risco pode ser compensado com a combinação de eficiência nas operações e atendimento em larga escala. Além disso, deixam cada vez mais claro que o crédito individual é um modelo pouco eficaz no caso de nanoempreendedores (aqueles com até R$ 60 mil de faturamento anual).
Quando eles se reúnem em grupos de três ou quatro pessoas para tomar o crédito, contudo, um se torna fiador do outro e os resultados melhoram. Mas é necessário haver coesão, de modo que os envolvidos toquem negócios de proporção parecida, tenham relação de amizade e vivam na mesma comunidade. Dessa forma, além de os integrantes poderem se ajudar nos momentos difíceis, é criado um constrangimento quanto ao não-pagamento das parcelas, já que, nesse caso, tanto quanto a instituição financeira, quem sai perdendo são os companheiros de grupo.
O tomador de microcrédito, todavia, tem características bastante peculiares. Para esse cliente, a orientação financeira acaba sendo tão ou mais importante do que a oferta de dinheiro em si.
Daí o papel fundamental do agente de crédito, personagem que sobe e desce morros de mochila nas costas e, mesmo sem o discurso acadêmico dos economistas tradicionais, transforma a visão e modo de administração dos nanoempresários. Para isso, precisa de empatia na comunidade, qualificação e muita disposição.
Ao contrário de estimular a informalidade, o Microcrédito Produtivo Orientado o combate. Estimula, isso sim, o empreendedorismo. E, acima de tudo, alcança pessoas que não podiam comprovar renda e as coloca na rota da bancarização e formalização. Não é um projeto social, tampouco caridade, mas põe o brasileiro de poucas oportunidades na condição de agente e protagonista de sua própria transformação.
José Giovani Anversa é superintendente-executivo de Microcrédito do Banco Real
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