11/09/2008
Gates quer levar banco aos pobres
Valor Econômico - 11/09/2008
Robert A. Guth
A idéia de que pequenos empréstimos podem despertar o espírito empreendedor entre os pobres do mundo rendeu um Prêmio Nobel da Paz em 2006 para um economista de Bangladesh e trouxe rios de dinheiro para milhares de programas de "microcrédito", na crença de que pobres são bons pagadores.
Agora, a maior entidade filantrópica privada do mundo está apostando que eles podem ser bons poupadores.
A Fundação Bill e Melinda Gates planeja doar centenas de milhões de dólares ao longo dos próximos anos para programas destinados a estimular a poupança em países pobres, dizem representantes da fundação, que tem sede em Seattle, no Estado de Washington, noroeste dos Estados Unidos. Trata-se da primeira ação da entidade em serviços financeiros e é parte de um esforço mais amplo da fundação por programas que ajudem a melhorar a infra-estrutura básica das regiões mais carentes de países em desenvolvimento."Vamos nos focar bastante em usar nossos recursos e nossa voz para trazer a poupança de volta à agenda mundial", diz Bob Christen, diretor de serviços financeiros para os pobres da fundação Gates.
A aposta em poupança, que se tornou uma importante medida da saúde de economias desenvolvidas, baseia-se na crença de que há ampla demanda reprimida por programas de poupança mesmo em áreas muito pobres. A poupança já é uma parte fundamental de muitas sociedades em desenvolvimento, na forma de ativos físicos; pobres de todo o mundo guardam sua riqueza para uso futuro criando gado, estocando café e comprando jóias.
Em alguns países, as populações carentes parecem querer mais. Seis bancos voltados aos pobres - nas Filipinas, Tailândia, Indonésia, Benin, Uganda e Colômbia - concluíram que a demanda por poupança superava em seis vezes a demanda por empréstimos, segundo um estudo de 2006 do Grupo Consultivo para Assistência aos Pobres, um centro de estudos patrocinado pelo Banco Mundial que deu consultoria à fundação Gates em sua estratégia de serviços financeiros.
Mas embora haja algumas histórias de sucesso, como o programa de correspondentes bancários no Brasil, a complexidade e o custo de prestar serviços bancários em países em desenvolvimento tornam o empreendimento repleto de desafios.
"É uma questão mais complexa quando você começa a destrinçar", diz Jim Bunch, diretor de investimentos da organização filantrópica Omidyar Network, que tem cerca de US$ 105 milhões investidos em entidades de microfinanças, algumas das quais expandiram-se nos últimos anos para entrar em poupança, seguros e outros produtos que não crédito.
O esforço poderia também levar a fundação Gates a forjar laços com telefônicas, bancos e varejistas, organizações com as quais os filantropos tendem a ter pouca conexão por motivos que vão do pragmático ao ético. Diz Christe: "É um novo mundo para fundações em geral."
Isso preocupa parte do movimento de microcrédito, que está envolvido num debate entre duas filosofias opostas. Alguns acreditam que serviços financeiros para os pobres deveriam canalizar seus lucros de volta a serviços para carentes. O plano da Gates é um aceno para o outro lado do debate, que defende que empreendimentos comerciais - bancos e outras empresas que visam lucro - podem servir melhor um grupo maior de pessoas se usarem ferramentas como os mercados de capitais para financiar expansão.
O tema de que os pobres do mundo merecem melhores serviços financeiros é agora um pilar do desenvolvimento do Terceiro Mundo, graças principalmente a Mohammad Yunus, um economista que ganhou o Nobel da Paz em 2006 por pequenos programas de financiamento que ele lançou em Bangladesh 30 anos atrás e que se espalharam pelo mundo. Seu trabalho ajudou a deflagrar um boom em microcrédito. Empresas, governos e pessoas no mundo rico destinaram grandes somas para novos programas de empréstimos ao redor do mundo. No Vale do Silício, empreendedores lançaram um site, chamado Kiva.org, que permite a pessoas físicas fazer pequenos empréstimos para empreendedores pobres. A atriz Natalie Portman emprestou seu nome a um grupo de microcrédito.
A decisão da fundação Gates de entrar no ramo é um exemplo de algo que provavelmente será um leque de novos programas, agora que Bill Gates está começando a trabalhar em tempo integral na fundação, a maior do mundo, com um patrimônio de US$ 35,9 bilhões. O trabalho financeiro é parte de uma expansão que a fundação fez há dois anos, quando entrou em desenvolvimento mundial, o que inclui investimentos para ajudar pequenos agricultores.
A fundação espera fazer progresso inicial em países como Brasil, Filipinas, México, África do Sul e Índia, que já têm muito da infra-estrutura necessária para estabelecer programas de poupança, diz Christen. Posteriormente, porém, ele espera que a fundação concentre a mais "significativa porção de nossos fundos" na África.
A promessa e os problemas estão claros em Malavi, onde a organização sem fins lucrativos Opportunity International detém US$ 15 milhões em 150.000 contas num sistema bancário para os pobres. A organização tem caminhões blindados com caixas eletrônicos que viajam por áreas rurais onde o banco não tem agências.
O banco dá lucro e cresce, mas é limitado pelo custo de chegar aos pobres na zona rural, diz Francis Pelekamoyo, presidente do conselho do banco do grupo em Malavi. Os caminhões, que têm satélite, computador e tecnologia de segurança, custam US$ 250.000, e o banco dá a cada cliente um curso de oito lições sobre produtos financeiros.
"Custa muito caro apresentar serviços financeiros a alguém pela primeira vez", diz Pelekamoyo. Com mais verba, diz ele, "eu chegaria mais fundo em áreas rurais".
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